terça-feira, 23 de outubro de 2012

Moral e Ética

Os jogadores malemá pensam numa estratégia para derrotar os vilões; questionar a moralidade da missão que aceitaram ou a ética dos meios utilizados para cumprí-la, então, vão achar que é piada se alguém levantar esse assunto durante o jogo.
Se vai adiantar alguma coisa a leitura desse livro para seus jogadores? Eu não sei. Aliás, nem sei se esse livro tem alguma coisa a ver com esse post.
É anti-ético ou imoral colocar a ilustração da capa de um livro que eu não li e nem sei se tem alguma utilidade? Eu também não sei.

É muito comum os jogadores participarem de uma campanha de RPG como se joga um videogame: matando monstros e passando de fase.
Mas não podemos dizer que isso está errado.
Só que o RPG tem tantas possibilidades que eu fico frustrado de tanta gente só no "game", sem dar a mínima para o "roleplay".
Também não podemos dizer que isso é culpa exclusiva dos jogadores. Tem mestre de jogo que conhece tão mal seu mundo de jogo que qualquer decisão diferente dos jogadores estragaria seu jogo, portanto, ele trava a missão em um trilho e deixa o pessoal apenas rolando dados.

Tenho um exemplo duplo disso. Exemplo do mestre de jogo ditar as decisões dos jogadores por não saber o que fazer caso alguém tenha outra ideia, e também, por incrível que possa parecer, de este mesmo mestre, neste mesmo jogo, oferecer uma opção de decisão moral aos jogadores.
Era um jogo baseado em um filme, percebi isso no decorrer do jogo (a história estava, ao mesmo tempo, muito bem elaborada, mas sem nenhuma opção de desvio por parte dos jogadores; algumas cenas meio que aconteciam sozinhas), e confirmei depois com o mestre essa suspeita (ele tinha assistido o filme de madrugada e tinha achado uma excelente ideia transformar o filme em jogo, tomando inclusive, todas as decisões pelos jogadores, para que o jogo ficasse tão legal quanto o filme).
O filme deve ser bom, portanto, para não dar spoilers do filme, vou modificar alguns termos e situações no exemplo.
Era um jogo de faroeste, o grupo de jogadores foi recrutado por um rico fazendeiro para resgatar sua filha de um bando de ladrões.
Depois de várias pistas, que praticamente apareceram na frente dos jogadores assim que o mestre recomendou fortemente que investigássemos tal local, o covil do criminoso que tinha sequestrado a filha do fazendeiro saltou à nossa frente.

Nem tem muito a ver com o tema, mas só para vocês terem ideia da vergonha que um mestre passa quando decide mestrar um filme sem se importar com outros detalhes do cenário ou com o fato de que alguns jogadores gostam de pensar, enquanto os personagens vigiavam o esconderijo, aguardando a noite para uma infiltração furtiva, os vilões saíram para assaltar um trem.
Aproveitando a chance, sugeri uma invasão enquanto os vilões estavam fora do covil. Ao invés de 20 bandidos, enfrentaríamos apenas uns 2 ou 3 guardas.
O mestre disse que não era uma boa ideia, que o melhor era entrar à noite, mas quando questionado pelos motivos que os personagens teriam para chegar a tal conclusão, o mestre disse que os bandidos já estavam voltando do assalto (que, de acordo com o mapinha, ficava no dobro da distância que era do nosso esconderijo até o covil).
Deu vontade de entregar a ficha do personagem para o mestre e falar para ele jogar com meu personagem também, que eu ficaria lá só assistindo e ajudando a rolar os dados, mas não o fiz porque tinham jogadores novatos na mesa que estavam achando interessante a experiência, e também porque o mestre de jogo, na época, ocupava cargo de chefia num estágio do Léo. Pronto, falei.

Mas voltando ao tema da moral e da ética; nós entramos no covil à noite, conforme o planejado, e enquanto seguíamos o caminho que era indicado pelo mestre de jogo pelo meio do covil, nenhum bandido acordava e nenhum vigia conseguia nos enxergar (imaginando a cena, eu via claramente uma setinha de neon piscando e informando "por aqui").
Eis que chegamos a uma barraca onde dormia, abraçada ao chefe dos bandidos, a filha do fazendeiro.
Antes que uma extração furtiva da prisioneir fosse feita (tapando a boca da moça enquanto o bandido era amordaçado e degolado), todos acordam e a moça declara que não foi sequestrada, mas que decidiu fugir da casa do pai para viver com seu amante bandido.
Nesse momento, e somente nesse momento, o mestre de jogo teve até que repetir a pergunta: "E então, o que vocês vão fazer?"
Ele precisou repetir a pergunta umas três vezes para que alguém se animasse a tomar alguma decisão no jogo.
Ainda tínhamos condições de render o vilão e retirar a moça do covil, mas deveríamos fazer isso?
A ética de pistoleiros mercenários dizia que deveríamos cumprir nosso contrato, porém seria moral ir contra a decisão de uma mulher adulta?
O que fazer?
Influenciado pelas conduções que o mestre tinha realizado até o momento, tomamos uma decisão: sentamos o dedo naquela porra, arregaçamos a cabeça dos dois e ateamos fogo no acampamento.
Mentira, a gente fez um trato com a moça, levamos a moça até o pai em uma área afastada da mansão dele, pegamos nossa grana, e como nenhum dos capangas do fazendeiro estava por perto, ela tinha a decisão de ir com o pai ou declarar sua decisão e fugir correndo.
Obviamente, este não foi o final do filme, pois o mestre de jogo encerrou o jogo com essa cena, pois não sabia se, naquela situação, a moça fugiria de novo ou aceitaria voltar com o pai.

É uma decisão trabalhosa para o mestre de jogo, ele deve estudar muito bem antes todos os aspectos de comportamentos sociais e de características de personagens, para que assim, coloque os jogadores em um dilema moral e ético: Será que é certo cumprir a missão?
Como disse nosso advogado quando uma editora fechou contrato de exclusividade com nosso livro com a decisão de não publicá-lo (sem pagar pela publicação e nem liberar a obra para outra editora): Nem tudo que é imoral é ilegal, e nem tudo que é legal é moral.
Fornecendo informações relevantes do cenário, o mestre de jogo pode levar os jogadores a questionar o papel deles naquela trama: Será que é certo cometer um crime para salvar o mundo? O nosso sucesso trará o benefício para um e a miséria para mil, devemos vencer? O alvo agiu contra a lei mas salvou a garotinha, devemos prendê-lo?
Vocês já assistiram "As Cruzadas", certo?

Porra Ridley Scott, com todo esse passado me vem com essa m#### desse "Prometheus", parece que desaprendeu a fazer filme... está ficando gagá?

Quem assistiu vai lembrar de uma cagada astronômica que o paladino comete ao manter sua conduta moral.
Lembrou? Em determinado momento da história, tudo que o mocinho tinha que fazer era UMA indecência.
Porém, para manter sua honra, integridade moral e blá blá blá, ele decidiu não pegar esse "atalho".
Deu no que deu.
Se você não assistiu esse filme ainda, insista com seu professor de Hisória que ele vai acabar passando para a classe.

A sociedade costuma ditar os padrões de comportamento, algumas vezes de forma subjetiva, como conceitos religiosos, outras, de maneira objetiva, como normas e legislações, porém, a pedagogia do amor, o socialismo e os defensores dos direitos individuais se esquecem de um fator em suas teorias sociais utópicas: o fator de filhadaputice humano.
SEMPRE vai ter um brasileiro querendo levar vantagem no esquema, utilizando o benefício da lei como oportunidade para sacanear seus semelhantes: Existe a lei que garante o ensino superior para uma raça (só uma dúvida: os seres humanos são ou não são iguais perante a lei?), e já aparece um vagabundo que não vai se esforçar nos estudos porque sabe que sua vaga está garantida. Existe a lei que dá todas as chances do mundo para o menor de idade, e vai aparecer o delinquente juvenil que vai cometer a maior quantidade possível de delitos antes de completar a maioridade. Surge a lei que auxilia financeiramente as mamães de baixa renda a criar seus bebês, depois de nove meses forma-se um círculo viciosos de procriação humana para garantir o recebimento contínuo de tal benefício.
E o cara que denuncia e luta pela extinção dessas leis, que fala na cara dura que direito de ## é ####, seria este um cara antiético e imoral? Será mesmo que a sociedade apoia o cumprimento de uma lei mesmo sabendo que tal lei só prejudica a maioria honesta da nação em função do benefício injusto de alguns?
E aí? Toda lei é ética? Ou vivemos num paradoxo social?
Ladrão que rouba ladrão merece 100 anos de perdão? Um líder de quadrilha de saqueadores é o herói do sertão? Um ex-jogador de futebol que trai a esposa com profissionais do sexo (do mesmo sexo que o dele) é o herói de uma nação? O policial que abre a porta da cadeia para estupradores e assassinos durante o indulto de natal está cumprindo com a sua função de deixar as ruas mais seguras? Está correto auxiliar velhinhas a sacar dinheiro no caixa eletrônico mesmo não sendo funcionário do banco?

Outro exemplo interessante de dilema moral/ético que pode aparecer em uma história está em "Gone Baby Gone", com título brasileiro de "Medo da Verdade".
A história começa com o desaparecimento de uma garotinha.
Com personagens meio caricatos, a solução de mistério parece óbvia, mas a história acaba se desenvolvendo de forma envolvente, e uma escolha moral acaba se tornando o principal desafio do personagem.
Nem veja o trailer para não ter spoilers, a história conta com várias surpresas que recompensam as observações de observadores mais atentos.
E mais uma vez, é interessante ver um personagem ter que passar por um dilema desses, fazer sua escolha e arcar com as consequências.






Um comentário:

  1. Interessante, dentro dessa linha de lei moral ou imoral, ética ou não, que tal essa notícia:

    "A ministra da Cultura, Marta Suplicy, vai lançar editais com a temática afrodescendente condicionando a produção e criação a produtores e criadores negros."

    Fonte: http://www.cultura.gov.br/site/2012/10/04/cultura-afrodescendente-2/

    A produção e criação relacionada a cultura afrodescendente condicionada ao fato do criador ou produtor ser também afrodescendente.

    Um descendente europeu não poderia participar.

    Será que agora orientais poderão exigir que produção cultural sobre os paises do Oriente sejam condicionadas aos seus descendentes? Vale o mesmo para cultura européia?

    Ao invés de promover a idéia de que a cor da pele é irrelevante, essa lei não vai na direção oposta, concedendo privilégios para pessoas exclusivamente por conta de sua cor?

    Enfim...vale a pena pensar sobre isso.

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