terça-feira, 15 de outubro de 2013

Cidade dos Ossos

Sonhei que eu estava andando em uma cidade branca, com prédios altos, linhas retas, e arredondamentos ornamentais em suas quinas.
A cidade tinha cores, mas todas eram claras, o dia estava ensolarado, as ruas estavam limpas, e a calçada era feita de crânios humanos. Crânios inteiros, encaixados uns nos outros de maneiras diferentes, para que suas saliências não incomodassem os pés dos cidadãos.

Um prédio estava em obras, e vi que suas paredes também eram feitas de ossos, de várias partes do corpo, e eram encaixados de tal maneira pelos pedreiros que as paredes pareciam retas.
Pedreiros de ossos…
Alguns deles estavam descarregando o material de construção de um caminhão. O caminhão era feito de metal, mas sua carga eram ossos, amarelados, e alguns ainda tinham restos escuros de carne grudados neles.
Aqueles ossos eram lixados até ficarem brancos, e depois eram envernizados por um esmalte transparente, que os deixavam resistentes como pedras depois que secavam.
Os pedreiros não eram escravos, eram trabalhadores normais, e faziam seu trabalho com dedicação, eu observava um deles envernizando um crânio com dedicação, passava com agilidade uma espuma encharcada por toda a superfície, e depois, lentamente, utilizava um pincel para cobrir qualquer ranhura que pudesse ter ficado desprotegida.
Parecia uma carícia, como se estivesse cuidando do crânio do próprio pai.
E realmente, poderia ser o crânio do próprio pai dele.

Ainda existiam funerais naquela cidade, alguns tinham seus corpos inteiros enterrados, mas alguns optavam por vender partes de seus parentes falecidos, contentando-se em enterrar apenas algumas vísceras que não tinham utilização.
Enterros de corpos inteiros eram apenas um símbolo de status. Corpos eram uma mercadoria como qualquer outra, vendidas para uma empresa de reciclagem que revendia as partes de maneira anônima.
A maçaneta da igreja poderia ser o fêmur de sua tia, e você nunca saberia disso.
O coração da sua mãe, que serviu para pagar a faculdade da sua filha, poderia estar batendo no peito de um popstar, e você nunca saberia disso.
Aquele mestre de RPG com quem você jogou algumas vezes quando era criança poderia ter morrido no ano passado, e você não ficou sabendo de sua morte e nem sabia que aquele sofá que você estava comprando era feito com a pele dele (coberta com um verniz azulado e com textura de camurça).
Nas óticas, você não comprava óculos, você comprava olhos, e um deles poderia ser daquela menininha por quem você era apaixonado no jardim da infância, mas depois que trocou de escola nunca mais ficou sabendo dela.

Pessoas não pensavam em sabotar os ossos, usar uma dosagem errada de verniz para que todas aquelas estruturas desmoronassem. Todos preferiam tratar os ossos com carinho e dedicação.

Era um conceito assustador, mas a cidade era linda.

Devo escrever um cenário cyberpunk de RPG com esses conceitos ou devo trocar de psiquiatra?



3 comentários:

  1. Por favor, continue com o cenário.
    Já existe muita falta de criatividade nesse mundo e quando alguém vem com uma ideia genial, ela deve ser estimulada.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir